Ao longo da história, os gatos ocuparam um lugar especial na literatura, surgindo como figuras enigmáticas que inspiram, acompanham e simbolizam a própria essência da condição humana e da arte de escrever.
Dos contos mitológicos à poesia mais intimista, estes felinos fascinam os escritores com a sua independência, mistério e inteligência. Pintores, poetas, romancistas e atores encontraram neles não só companhia, mas também um espelho dos seus próprios pensamentos e emoções.
Neste sentido, a sensibilidade poética de Miguel Barreto Henriques alinha-se com esta exploração literária, permitindo que o seu olhar mergulhe no vínculo único e duradouro que une os gatos à alma criativa dos escritores, repercutindo-se profundamente nos seus leitores.
Miguel Barreto Henriques explorou a presença dos gatos na sua poesia em diversas obras. O seu livro Versos Livres Versos Livres inclui poemas que abordam temas diversos, incluindo os gatos domésticos, demonstrando a sua capacidade de transformar qualquer aspeto da vida em poesia. Além disso, o seu poema Os gatosincluído em El pie derecho de Maradona (O Pé Direito de Maradona),demonstra a sua sensibilidade para com estes felinos. Escreveu também ¿Y si Dios fuera un gato (E se Deus fosse um gato?), um poema que reflete uma perspetiva única sobre a relação entre os gatos e o divino.
E se Deus fosse um gato?
E se Deus fosse um gato?
E se Deus fosse um gato?
Será que brincará com a humanidade como uma bola de lã?
Será que fará girar o mundo como uma bola?
Provocará terramotos perseguindo uma borboleta?
Será que extinguirá espécies de pássaros só para não se aborrecer?
Será que observará tudo da altivez da sua torre de vigia?
Será que dormirá ¾ do dia?
Ronronará sobre o mundo quando estiver feliz?
Será que gostará de ter a barriga mimada?
Estará entre nós?
(Um gato de rua num terraço
A quem um sem-abrigo mima...)
E se Deus for um gato?
Será que alguma vez estará menstruado?
Um calor estranho e doloroso de miados extremos?
Como é que isso afetaria a energia cósmica do mundo?
Deus irá reproduzir-se?
Será que terá afilhados?
Ou gatos semideuses?
E se Deus for um gato?
Quem será o rato?
E se Deus for um gato?
E se Deus for um gato?
Seremos os seus animais de estimação?
Os gatos
Os gatos
estão convencidos
de que dentro de cada
bolsa,
pacote,
balde,
bota,
caixa,
gaveta…
Pode encontrar
um tesouro
uma guloseima
a pedra filosofal
Pode fazer
os mistérios do universo revelarem-se
Ou pode até encontrar um rato ou pássaro escondido...
(Talvez tenham razão...
Quem perde a capacidade de vislumbrar brinquedos invisíveis
perde o modo de vida mais saudável e sábio)
Miguel Barreto Henriques é um escritor e académico cuja obra entrelaça a poesia com reflexões sobre a paz, a memória histórica e a identidade. A sua abordagem multidisciplinar permite-lhe explorar a dimensão humana numa perspectiva literária marcada pelo simbólico, pelo filosófico e pelo introspectivo.
A sua escrita distingue-se por uma sensibilidade que transcende o meramente estético, abordando temas como a reconciliação, a natureza e a condição humana com uma linguagem carregada de metáforas e profundidade emocional. A influência de diversas correntes literárias e filosóficas manifesta-se num estilo que privilegia o verso livre e o pensamento crítico.
Formado em relações internacionais e resolução de conflitos, Henriques incorpora uma perspectiva analítica que enriquece a sua obra poética. O seu interesse pela arte como veículo de transformação social reflete-se numa obra comprometida, profundamente enraizada na ética e na estética.
Ecos das tradições poéticas portuguesa e latino-americana ressoam na sua voz, fundidos com elementos do modernismo e da poesia social. Através desta síntese, a sua escrita adquire um carácter experimental que combina referências culturais com profundas meditações sobre o tempo, o ser e a memória.
História Felina na Literatura.
Os gatos desempenharam um papel significativo em diversas religiões e culturas ao longo da história. A sua presença tem sido interpretada de diversas formas, desde símbolos de divindade a criaturas associadas à magia e à proteção. Por exemplo, na
- Egito Antigo: Os egípcios veneravam os gatos e consideravam-nos sagrados. A deusa Bastetrepresentada com uma cabeça de gato, era a protetora do lar e da fertilidade. Os gatos eram tão importantes que a sua morte podia ser motivo de luto familiar.
- Budismo: Em alguns templos budistas, os gatos são vistos como guardiões espirituais. Acredita-se que a sua presença ajuda a manter a paz e a harmonia. No Japão, os templos costumam ter gatos, considerados símbolos de boa sorte.
- O Cristianismo na Idade Média: Durante este período, os gatos foram injustamente demonizados na Europa. Foram associados à bruxaria e ao paganismo, o que levou à sua perseguição. No entanto, em algumas comunidades monásticas, os gatos eram valorizados pela sua capacidade de controlar pragas.
Islão: Na tradição islâmica, os gatos são considerados animais limpos e respeitados. Diz-se que o profeta Maomé tinha uma gata chamada Muezzaa quem tratava com muito carinho.
Durante a Idade Média, os gatos adquiriram uma dupla perceção: por um lado, eram companheiros domésticos, mas também estavam associados à bruxaria e ao ocultismo. Na literatura da época, a sua presença era menos frequente, embora aparecessem em contos populares e superstições. No folclore celta, os gatos pretos eram considerados portadores de boa sorte, em contraste com a visão negativa predominante na Europa.
Romantismo trouxe consigo um ressurgimento do interesse pelo misterioso e pelo individual, levando a uma maior presença de gatos na literatura. Edgar Allan Poe, por exemplo, escreveu "O Gato Preto", uma história que explora a culpa e a loucura através da figura de um felino. Charles Baudelaire, em "As Flores do Mal", dedicou versos aos gatos, destacando a sua elegância e adivinha.
Na literatura moderna Na literatura contemporânea, os gatos assumiram papéis variados, desde personagens centrais a símbolos subtis. Em Kafka à Beira-Mar, de Haruki Murakami, os gatos têm um papel fundamental no enredo. Na poesia, autores como Jorge Luis Borges incluíram-nos como metáforas para o insondável. A literatura infantil também os acolheu, com personagens icónicas como o Gato das Botas e o Gato de Cheshire.
























