Mi buen amigo y camarada “RUCiano”, João Sardo escribió esta hermosa reseña de mi libro “Poemas del Purgatorio”:

Leia os poemas de Purgatório sem procurar um fio narrativo, uma tese poética ou alguma promessa de salvação literária. Eu encontrei outra coisa: um estado. Um estado instável, de tráfego constante, de leve desajuste com o mundo, como alguém que perdeu a bússola.
Não julgue este purgatório como se tivesse algo edificante. Aqui não se paga culpa nem se promete redenção. É um purgatório diário, quase doméstico. Um lugar onde convivem gatos e pardais, ideologias e videiras, Deus e a sua desmontagem, política, desejo e absurdo. Tudo ao mesmo nível, sem reverências, como acontece quando abandonamos a ilusão de que a vida obedece a esquemas claros.

O que mais me interessou neste livro foi a sua liberdade sem espetáculo. Nada aqui presume transgressão, mas quase tudo é prático. Miguel escreve com uma naturalidade que não pede permissão nem aplausos. Há humor — muito —, mas não como anestesia nem como piscadela cúmplice. É um humor instrumental, um método de desmantelamento. Um humor que não consola, não simplifica, não pede desculpas. Um humor que entende que o riso pode ser uma forma exigente de pensar, especialmente quando o pensamento sério se tornou previsível, solene e, com demasiada frequência, inútil.

Estes poemas nascem de uma dupla desconfiança: em relação às grandes verdades e às pequenas certezas. Miguel não acomoda dogmas nem cinismos confortáveis, esses lugares aparentemente lúcidos onde já não é necessário pensar demasiado. Em vez disso, surgem associações improváveis, imagens que não pedem permissão para entrar e uma linguagem que às vezes se reduz ao mínimo e outras se deixa contaminar, como se o poema estivesse constantemente a testar-nos.

Gosto especialmente da forma como o livro alterna entre a suposta estupidez e uma clareza quase cruel, tão limpa que desarma. Rimos. Baixamos a guarda. E, sem aviso prévio, surge uma frase curta e silenciosa que nos devolve ao cerne da questão. Como se Miguel dissesse, sem levantar a voz: podes rir, mas não te esqueças que isto também tem a ver contigo.

Aqui também há uma geografia que não se mede em mapas. Não é tanto um território de lugares, mas de olhares. Um olhar deslocado, próprio daqueles que vivem entre países, entre idiomas, entre formas diferentes de pensar o mundo, e que já não se sentem confortáveis pertencendo a algo demasiado empacotado.

Miguel escreve a partir desse lugar intermediário, preferindo os espaços ambíguos, as zonas cinzentas, os interstícios onde ainda é possível errar — falhar, derrapar — sem pedir desculpas. E depois há os pequenos nadadores. Aquilo que normalmente não entra em discursos importantes nem conta para estatísticas respeitáveis.

Nas mãos de Miguel, esses nadadores adquirem peso poético. Não como um ornamento delicado, mas como um gesto de resistência íntima diante do ruído constante, da urgência permanente, da obrigação contemporânea de sempre ter uma posição definitiva, acima de tudo. Este livro nos lembra que observar, parar e brincar com o mundo também é uma forma de lucidez — talvez uma das poucas que ainda nos restam.