Martina Matozzi apresenta Poemas do Purgatório.

1.
Boa tarde a todas e a todos.

Quero começar por agradecer ao poeta Miguel Barreto Henriques pelo generoso convite e pela confiança.

Um agradecimento à Imprensa Nacional Casa da Moeda pela continuidade e pela responsabilidade com que mantém o prémio Ferreira de Castro, que no ano passado (2024) foi atribuído ao livro Poemas do Purgatório, que hoje tenho o prazer de apresentar. Agradeço, portanto, também os meus colegas de júri, o Presidente Luís Filipe Castro Mendes e a Editora Chefe da INCM, Paula Mendes, com os quais tem sido uma honra trabalhar.

Obrigada também ao Teatro Académico Gil Vicente pelo acolhimento.

2.
O Prémio Ferreira de Castro, não distingue apenas um livro, mas creio que assuma uma posição clara no campo literário português e não só: o de reconhecer e de legitimar obras, em prosa, poesia ou teatro, que nascem em deslocação, da experiência migrante.

Uma vez que dediquei e dedico, sob várias perspetivas (da literatura, dos estudos culturais e da linguística) a minha pesquisa académica às representações artísticas dos fenómenos migratórios, é particularmente estimulante, para mim, apresentar o livro de Miguel Barreto Henriques.
Antes de entrar, literalmente, na apresentação do mesmo, gostaria de ilustrar brevemente a forma como estruturei a minha fala.

  1. Começarei com um registo mais situado, talvez também ligeiramente pessoal, explicitando o lugar académico e crítico a partir do qual vem a minha leitura do livro.
  2. De seguida irei passar a uma reflexão interpretativa, arriscando-me na convocação da Commedia de Dante e, claramente, do Purgatório enquanto espaço intermédio de travessia e memória.
  3. Irei concluir com uma abordagem mais analítica onde tentarei entrar em diálogo com a voz do poeta (MBH) e com as múltiplas vozes que habitam o meu próprio trabalho sobre representações literárias da emigração no contexto de língua portuguesa e com o trabalho que desenvolvo com as línguas, enquanto docente de língua italiana e de história da língua italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

3.
Falo hoje a partir de um lugar deslocado, onde me sinto em casa: sou italiana e portuguesa por naturalização. A minha formação académica é em grande parte italiana e deslocou-se no mundo lusófono.

Será talvez um lugar híbrido, simultaneamente interno e descentrado. Por exemplo, poderei afirmar que ensinar uma língua estrangeira, e também a sua própria história, significa confrontar-se diariamente com uma evidência simples, mas pouco confortável: nenhuma língua é neutra, estável, homogénea. Trata-se do princípio natural de todas as línguas (naturais): a mudança, dependendo esta de vários fatores de variação: geografias, temporalidades, sociedades, meios através dos quais comunicamos. Na sala de aula, e de igual na vida, as línguas revelam-se práticas vivas, poderosos meios de expressão e comunicação: tropeçam, resistem, erram, carregam memórias, expõem zonas de incomunicabilidade.
É mesmo com este último ponto que a poesia dialoga e assim também os versos de Miguel Barreto Henriques. A poesia não elimina a incomunicabilidade, dialoga com ela.

4.
É a partir destas breves e incompletas considerações que vou propor a leitura de Poemas do Purgatório enquanto livro em que também a linguagem se encontrará, precisamente, no purgatório.

Tive então que pensar e revisitar a Commediafoi inevitável, apesar de que quero desde logo avisar que não sou de todo especialista na matéria. Li Dante, mas o Dante que hoje leio mais é o Dante-linguista ante litteram, o intelectual que refletia sobre as línguas em latim, por exemplo, no De vulgari eloquentia.

Portanto, de forma até bastante simples, leio o Purgatório como espaço intermédio: não estamos na condenação absoluta do Inferno, com os seus círculos (gironi); não estamos na redenção plena do Paraíso. Estaremos, talvez, num entre-lugar, um entre-lugar, precisamente, da incomunicabilidade?

Não sei acertar na resposta, mas parece-me que, para Dante, o Purgatório é um espaço em que para comunicar é necessária a memória (referência ao trabalho de Contini; veja-se, por ex.: CONTINI, Gianfranco, Un’idea di Dante, Torino, Einaudi, 2001). Uma memória não pacificada, não munumental, que se inscreve no corpo, na viagem, na travessia, na dificuldade de um percurso que será sempre em subida (in salita).

Por ex. as palavras da personagem Pia dei Tolomei: ‘lembra-te de mim, eu sou Pia […]’ (Canto V, Purgatório) – em que Pia pede a Dante para que, ao regressar ao mundo, se lembre dela e relate a sua história, mencionando a sua origem em Siena, a sua morte por parte do marido em Maremma por causa da sua suposta traição.

Nada está resolvido no Purgatório , tudo está em transformação.

5.
Creio, talvez, que o título Poemas do Purgatório possa representar, na leitura que aqui apresento, um gesto poético de geo-deslocalização. Os poemas do livro habitam um entre-lugar: não oferecem sínteses, não prometem, não organizam, dialogam com a incomunicabilidade e com a memória, talvez pedindo para serem lembrados (ou lidos?), como é próprio da poesia.

Diria, até, que estes poemas permanecem numa zona de fricção ética em que a língua está em permanente resitência.

É a partir daqui que vou tentar entrar em dois poemas.

O primeiro, “Sobre o amor e sobre a guerra” (p. 23).

Como o pessoal é político,
toda a vida
é uma trincheira.

Mas eu não quero ser
dano colateral
de nenhuma bandeira.

Há uma recusa forte da retórica heroica e o político poderá talvez ser uma condição existencial permanente. A “trincheira” não é campo de batalha, mas o quotidiano, a vida, o corpo, o nosso ‘aparelho fonador’, a partir do qual, de facto, também sai a voz e aquelas que chamamos ‘palavras’ e de que nenhum linguista ainda conseguiu oferecer uma definição precisa. O não querer ser “dano colateral de nenhuma bandeira” será uma resistência ética à abstração do mito? À sua elevação? Mas de qual mito?

O segundo poema “Úlcera no esófago” (p. 41) vai mesmo ao encontro do ‘aparelho fonatório’ de que falei há pouco.

A ditadura da burocracia,
a ditadura da democracia,
a ditadura da lei,
a ditadura da moral,
a ditadura do centro,
a ditadura do belo,
a ditadura de Deus,
a ditadura dos sentidos,
a ditadura dos outros,
a ditadura do politicamente correto,
a ditadura do progressistamente correto,
a ditadura da ditadura,
é dita,
é dura.
Mas,
como diz o povo,
a mais dura
é a verdura.

Ridicularizar os gestos a partir da enumeração e, como é próprio dos surrealistas, o humor que não suaviza absolutamente nada. A úlcera é o corpo a responder à pressão de uma realidade: língua também é poder.

Foi impossível, para mim, ler estes dois poemas sem convocar a voz poética de Jorge de Sena, uma figura limite de um “intelectual em deslocação”, de crítico, ensaísta, poeta, professor de literatura e muito mais.

A poesia não consola, antes expõe, é um gesto ético. Veja-se, por exemplo, a poesia “Em Creta com o Minotauro”:

[…] Colecionarei nacionalidades como camisas se despem, se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.

Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.

[…] Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.

(Sena, Jorge de (2013), Poesia. Lisboa: Guimarães Editores: 516, 518)

6.

Neste último e breve ponto, com o qual irei terminar a minha apresentação, volto, de forma perentória, sobre as minhas reflexões sobre literatura e emigração portuguesa (Matozzi, Martina (2019) De torna-viagem. A emigração na literatura portuguesa. Lisboa: Caleidoscópio) em que procurei argumentar que a emigração não é uma temática marginal na literatura escrita em língua portuguesa, mas que é até bastante estruturante, embora relegada e silenciada como de resto tem sido defendido, criticamente, pelo mesmo Jorge de Sena, mas também por Miguel Torga e Eduardo Lourenço, entre outros.

A literatura escrita em língua portuguesa, na deslocação, é um património da palavra que nos comunica muito. Uma literatura que não volta, que não se fecha, que permanece numa tensão de torna-viagem.

Não porque fale diretamente ou indiretamente da experiência (de vida) migrante, mas porque partilha aquilo que é próprio da linguagem.
No livro de MBH manifesta-se bem o que é próprio da linguagem, o que Walter Mignolo denomina de ‘languaging’: língua é fricção, é atravessada por erros, é prática situada, não é neutra, mas sim atravessada por relações de poder (veja-se: Mignolo, W.D., 1996. Linguistic Maps, Literary Geographies, and Cultural Landscapes: Languages, Languaging, and (Trans)nationalism. Modern Language Quarterly, 2 (57), 181-196).

7.
O livro de MBH convida-nos a reler, a partir da fratura, a linguagem na sua incomunicabilidade. Voltando a um dos pontos de partida desta apresentação: não, o purgatório não é um lugar confortável. É um lugar em que a memória e o passado serão fundamentais para uma (im)possível redenção. Citando Dante: ‘Puro e disposto a salire a le stelle”, na tradução de Vasco Graça Moura “Puro e disposto a me elevar a estrelas”.
Obrigada, MBH, pela generosidade da tua palavra.

Texto originalmente pensado para apresentação oral, mantendo a estrutura e o ritmo da fala.

Martina Matozzi
Coimbra, TAGV | 20 de dezembro de 2025