Uma recensão ou review ou o diabo a quatro.

por Rui Jacaré, um servo de Deus..

Quando o meu querido amigo (pfff) Miguel Barreto Henriques – operacional do Exército de Libertação da Couve (ELC), causa-irmã do meu Partido de Libertação do Fundão (PLF) - me pediu para fazer uma review à sua mais recente aventura poética, intitulada Poemas do Purgatório, a primeira coisa que lhe perguntei foi “O que estás aqui a fazer?” e, depois, “Porque é que é que estou nu deitado numa banheira cheia de gelo?”

Já que estava dentro de uma banheira, mergulhei no recueil barretiano e li avidamente os poemas incluídos nesta obra que sucede aos estrondosos êxitos anteriores do Miguel, nomeadamente Vã-Guarda: Autobiografia Não-Autorizada, El Pie Derecho de Maradona, Versos Livres ou A Mensagem.

Foi uma daquelas agradáveis surpresas, só comparável a quando vemos um sem-abrigo bêbado vomitar em cima de uma criança num transporte público sobrelotado. Diria mesmo (até porque sou um pedante execrável) que esta obra é um autêntico Peloponeso poético onde abundam técnicas estilísticas elaboradas como dispor – por exemplo, em “Os gatos de Roma vêm a minha casa” - a mancha gráfica ou totalmente colada à esquerda da página ou à direita. Ou, então, o burro do poeta não sabe usar a opção “justificar texto” no Word que, para quem o conhece, é o mais provável.

Outros poemas, como “Metade silêncio”, recorrem à parca utilização de palavras (neste caso em concreto, sete palavras mais coisa menos coisa - não estive para contar). Lê-se “A poesia / é metade palavra, / metade silêncio.” Concordo plenamente, pois, por vezes, os silêncios carregam as verdades que a verborreia contemporânea não quer assumir. Também é fixe venderem metades de melões no Pingo Doce, daqueles já cortados, embalados e pesados, com preço. É muito prático.

Em poemas como “Os pardais”, encontramos outra técnica muito querida (tal como a sua mão direita) a Barreto Henriques (aka DJ Couve): a referência a colegas seus do Olimpo (caraças, era isto que queria usar lá atrás e não Peloponeso) poético nacional, como o herói fundanense Eugénio de Andrade.

Outro tipo de recurso que encontramos é a referência autobiográfica, como em “12, Alexandra Street meets Rua Nicolau Chanterenne, 242, 2.º post., esq.”, onde o autor menciona (com lancinante precisão) uma rua onde morou na sua Coimbra natal, onde uma vez, em cenário de ressaca dantesca do próprio, acorri-lhe eu com uns restos de frango assado do meu almoço para alimentar o poeta em atroz sofrimento. Nesse dia, vi como é a face da morte.

Já em poemas como “As celas”, o nosso Baudelaire do Calhabé faz uso de um fabuloso exercício de intertextualidade (e certamente para encher chouriços métricos). No caso em apreço, o bardo conimbricenso-cafetero começa por citar O Banqueiro Anarquista de Fernando Pessoa, bem melhor que o meu banqueiro anarquista, que me ficou com o dinheiro todo e com metade da minha caderneta de cromos do campeonato do Tajiquistão (época 1993/94, como é óbvio).

Uma outra ferramenta à qual recorre a verve do Shótor Miguéle é o celebrar do bas fond onde ele tão bem se move, como podemos aferir em “Noite de Outubro”, um poema laudatório (para quem gosta deste tipo de merdas) de seres como bruxas, vampiros, góticos ou betos.

Outro clássico é o incluir do universo futebolístico na poesia de Barreto, neste caso o histórico René “Higuita” Higuita no poema “Solta o René Higuita que há em ti”. Reincidente é também o recurso ao paradoxo (ou antítese ou oximoro, não sei bem porque já estou meio tocado) como baluarte da sua poética. Tal é patente em “De pernas para o ar”, como pontifica nos seus versos:
“’O mundo está de pernas para o ar’,
ouve-se entre cigarros e bicas.
Mas sempre esteve.
Só fazendo o pino
se pode ver com clareza.”

Outro habitué da fecunda opus poética de Henriques, é o (insistente e aterrador) recurso ao campo lexical da couve, essa temática que perpassa o imaginário deste galaró da Beira Litoral. Podemos dar o exemplo presente no poema “DJ Couve e a Ordem da Pipa”:

“O Miguel é uma couve.
O Miguel é uma coube.
O Miguel nunca coube.
O Miguel é uma senhora couve.
O Miguel é uma futura couve licenciada.
O Miguel é uma futura couve licenciada.
O Miguel é um DJ Couve.
O Miguel é um DJ Couve de Bruxelas.
O Miguel é uma Cow-ve.
O Miguel é uma BalaCov.
O Miguel tem caule.
O Miguel faz mal i à sida.
O Miguel é verde.
O Miguel é um militante do Exército de Libertação da Couve.
O Miguel quer libertar-se de si mesmo.
O Miguel tem conflitos interiores.
O Miguel está todo lixado na couve.”

Avançando que já se faz tarde e há quem trabalhe, outra característica que convém mencionar quando abordamos a poética barretiana, é a batalha sagrado vs. (ibu)profano, magnificamente exposta em “Debaixo de chuva”, onde lemos “Atravessei a cidade, / debaixo de chuva, / para pecar. / No táxi soava uma emissão cristã”.

Uma última característica que gravita o planeta Poesia Miguel é o recorrer ao tema da escatologia, tão querida ao autor (e a mim, quando nos sites certos de partilha de vídeos para adultos). É o que esplendorosamente acontece no poema “Merda de Pombo”, que inclui também um piscar de olho ao tema da imortalidade, que acho merecedor de colocar aqui na totalidade (até porque sou pago à letra):

“Não desdenho uma estátua.
Quem não sonhou sobreviver ao tempo
em forma de bronze e merda de pombo?
Podem escrever na placa:
professor, poeta, sofá de gatos
(em ordem inversa de importância).”

Bem, o texto já vai longo e eu tenho de discursar daqui a nada no Grémio Literário no âmbito das XXIII Jornadas do Satanismo na Filatelia Nacional. Fica o repto para que adquiram (seja no seu lançamento ou diretamente junto deste brilhante poeta que é o Manuel Barreto Rodrigues) e leiam os Poemas do Purgatório, obra que venceu a 6.ª edição do Prémio Imprensa Nacional/Ferreira de Castro, facto que deveria ter já referido mas agora já está.

Prometheus-vos (foda-se!) que não se irão arrepender e que poderão citar versos deste livro em situações especiais como casamentos, funerais ou quando estão a mudar o barril dos finos na tasca da vossa predileção.